Brincos de ébano
Cruzei o rio com meus brincos de ébano. O barco, silencioso, delizava ao som suave do amanhecer.
Duas horas me separavam do porto. Não me lembrava do momento em que o dia já não se percebia noite. Há quanto tempo eu vagava no escuro?
O caminho não era meu, não era do barco, mas do rio que não se pertence, segue apenas para a vazante infinita do mar.
A vida não sabe de caminho, não pede solução. Existe, permite-se, respira. Minha troca de ar com as árvores da margem era o caminho pluvial da mescla da alma vegetal com a minha.
Como meu barco, a alma percebe seu caminho entre meu pulmão e a seiva arbórea: seu lugar é em caminho, habitat aéreo.
Podia ver o movimento das folhas com os olhos fechados. O silêncio das águas era um abraço quente.
Dia já alto, eu sonhava com o ruiído congelado das minhas pegadas na terra.

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